quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Tristeza do Número

Um, dois, três, quatrilhões...
presos aos ossos do matemático
castigando a fé desse reumático
nos braços, dedos, cabeça como grilhões.


Mortes, orgias, - catastroficissima solidão -
fabricando a fantasmologia da contagem
catando, contando... inúmera contagem.
Só existo se em registro um numero me dão


se um dia me tirassem esse número.
perceberia que unicamente estamos
vivendo a alegoria da vantagem.


mas vejo somas, subtrações no útero
e sinto que só existiríamos
se entrassemos nessa triste contagem.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Bom tempo

Temporalmente não chovo,
nem meus dias são claros,
sigo sempre assim, nublado,
parcialmente nublado.

Minha tarde não é calorosa
nem tem de usar agasalho
ela é assim, um leve mormaço
um claro e sombrio mormaço.

Minha noite não é estrelada...
possui muitas nuvens,
alta carga positiva e negativa,
geradora de relampejantes idéias.

Sou assim: Dia nublado,
com um caloroso mormaço
com noites escuras, coriscos...
à intensidade de um tempo perturbado.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A consciência

Minha fantasia é absurda...
Esse inseto que consome e regurgita
as mais insanas possibilidades de vida
e as putrefações em dia umido visita.

Visita a umidade abaulada do meu quarto
e põe-me a perceber a figura desse rastro.
Castigando as eras fantasmagoricas dessa visagem
a sentir ânsias, absurdamente, vi uma miragem

catequizando meu intestino, convertendo-o.
Inseto imundo que transcende as eras ao relento
vinha me despertar d'um fantastico intelecto.

Este que fermenta e alcoolisa, vibrações inatas
brota de semente em semente de radiotivas fontes
atravessando pontes imensas com forças incógnitas.

Augusta Ladainha

A Augusto dos Anjos

Cantou ao tamarindo de sua vida,
sonetos da putrefação do homem
no âmago intestinal que o consolida
dizia coisas que por dentro consomem.

Me vi junto a vermes, corvos, carneiros...
seguindo um fantástico caixão,
Celebrando a chegada do poeta coveiro
que cavava dos sepulcros a bela Canção:

"Foi assim como na sua profecia:
morreu aos trinta de pneumonia.
Enfermo, então veio a perecer.

Mas o contrario de teu corpo, poeta,
aquém dedico minha Litania,
os teus versos hão de nunca apodrecer."


domingo, 20 de dezembro de 2009

Pobre vaidade

I
Ela tinha o caminhar leve dos alcoólatras.
Uma estreita faixa rubra de batom seguia
se alastrando na boca sem dentes: vazia.
mas sorria ainda, com o sorriso dos hipócritas.

Na alma, moribunda e maltrapilha, a desgracença
nos poros, absorvia a ciência trágica do dia
e no peito, dessa louca, que outrora vadia
fazia assim: um olho na vida, e outro na descrença.

Essa amante dos sibaritas, levou nas costas um peso -
Uma corcunda horrenda e a falta de alguns inúteis dedos.
E na boca uma estreita faixa de batom avermelhado,

com o rosto deformado e as vestes em retalho
engolindo a ânsia d'um coração cuspindo escárnio,
via-se ainda um orgulho de quem já tinha amado.

II
Correspondia a todos os olhares das ruas...
Olhava, sorria, e o peito inchava de orgulho.
Com o sorriso murcho de novo, voltava ao entulho.
E no monturo, que se encontrava, estava ela, nua.

Sobre o reflexo solar: que é a lua, lavava-se.
retirava as lepras e escárnios do dia imundo.
Mas na boca permanecia ainda o batom rubro
e no olhar o sorriso de posse da vaidade.

Encerrava-se em si mesma, como inseto morto.
vivendo, assim: a noite gente e de dia estorvo.
e ainda ouvindo gracejos, tais, -"Puta!", "puta"...

Oh! Senhora, ser dos sonhos monstruosos,
ainda assim infla o peito de amores incestuosos...
e sorri ainda para os pobres que te insultas.

domingo, 22 de novembro de 2009

A mosca

Estava acima, no teto, a espreitar-me.
Monstro azul, enorme: - confesso, tinha medo.
E Isso ai, que engolira meu sono e sossego
Zumbia com desdém e vingança, a circular-me.

E circularmente, subia e descia, e pousava
sobre o teto em que ela dominava e,
a cada elipse, sinuava-se em um pouso provocante
e provocava meus nervos: parte dissecante.

E num pouso extraordinário, depositou
em meu corpo áspero, uns ovos ao acaso
e como quem confia, voou e esqueceu do fato.

Mal saberia ela, que em mim depositava as
esperanças futuras, de um dia, eu morto,
renascer nos ossos e vísceras, um bicho desse novo.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Uma prostituta

Doa a todos a sua virilidade e só pede em troca,
alguns trocos. O que pode siguinificar pouco...
Passa a ser muito para uma massa, para um todo.
Para ela, ser o que É, é só para alguns seletos.

Seu corpo causa tanta ostenta, que alcooliza,
causa fome, fadiga e no fundo conformiza...
É perversa para os que não a consomem.
Ah! Senhores, oportunidade tem poucos homens.

Busca-se então outra possibilidade...
Um vigor tal, não pode ser assim, tão selvagem.
Domar e sugar seu seio murcho e farto.

É para ser prazer de todos, isso, amigos, é fato.
Explora-la, consumi-la, aproveita-la, não basta.
A ela paga-se uma chance e a espera numa fila.